interrogativa ponho a máscara e gargalho reticente.
não te aguardo, nem pergunto por onde anda o amor.
há um calo no meu silêncio, eu vejo.
verbalizo então minhas híbridas palavras pontudas,
nas pausas obtusas de seu blá blá blá:
escárnio agudo nas sangrias de minhas desilusões.



crônica

era uma vez
o mundo

(Poesias Reunidas,Oswald de Andrade)

*se o mundo que é mundo foi uma vez só
porque meus problemas serão inúmeros?
tolice.
bilhete ao amor ausente


querido,
o dia continua atípico com céu temperamental.
eu continuo com os adjetivos excessos, mas isso você aí já sabia.
ando surda e anoitecendo rápido demais para contar suas estrelas.
acho que me perdoa por isso, não?
das arrogâncias I


eu vomito auto suficiência
segurando minha própria testa.
falseio meu bem estar e ponto.
"dispensa o mundo, vai."
eu me basto no casto desespero.
um ciclo fechado,
ma dor, um nada,
um descanso na estrada
.e ela só,a esquerda de si, insignificando-se,
á direita monetarizando- se.
mendiga com realeza própria um destino e seu mapa;
guarda o que sabe de tudo, mas sequer se personifica;
conhece o atlas de sorrisos, mas escolheu por escárnio,
a gargalhadae assim, vendida em sua suposta pobreza,
ela paga o preço da escolha.ainda que encolha por trás de vírgulas,
que extenda suas cartas na mesa,
ainda que precipitada á beira de um abismo,
ela calce o desânimo com o próximo passo.
"á partir daqui" como O Louco-a carta escolhida,
invertida a elano velho baralho de Marselha
-supera o luto e pontua o infinito.
começar do zero é finitar.
paciência

as favas andam excessas
não há como mais remeter
de absolvições ficam promessas
que impotente não tenho como deter

pela última página

para escritores de reticências e leitores reticentes

na minha agenda de ócio indócil
retomo frígida incompletas leituras:
campos de carvalho,
leminski no gargalo
e cesar em ana cristina.
confundo-me em pontuações metafóricas,
tempos interrompidos
e mortes de livros lidos.
não sei do ponto,
nem da reticência.
sei da vírgula,pausa,
esquecimento,luminescência.
alguém mexeu na instante:
nesta estante não cabem insistências,
nem desistência.
cabem marcadores de letras e ponteiros,
passagem em aspas e alteregos sem máscaras,
premeditar finais ao livro dado pelo meio,
preliminar olfatos e tatos no celulósico portador,
tesear aproximação
e de repente:
tesão
as letras no sentido-gozo de exautão:
e é FIM
da noite e das damas dela

enquanto a noite dorme,
esquecida de amanhecer suas palpébras,
ele acorda enorme
gangorrando em móbiles luzidas:
sirius,mirgel,gacruz,albedaran.

despenca assim, mole e fofo,
ele nas minhas premeditadas nuvens.
eu deixo pulos com as caras tais,
espelho de suas estrelas,
dois olhos a mais.

constelações invento, outro me inventou.
em mim, ele estrela completa:
seus olhos em zodiacal traçado de um destino.
eu vivo.
com ele.
constança era maníaca bipolar
cristiana era pagã
letícia era triste
ana era desproporcional
maria era complexa
clara era obscura
norma era anárquica
estér era nublada
glória era uma fracassada
bruna era "loira"
alva era morena
patrícia era hippie
lisa jamais esfoliava
rosa tinha cravos
e aurea vendia bijuterias

todas eram
só não assinavam as suas sinas

divagações I

cap. "ousam dias ou são noites? "

- veste-se novamente de ousado.
- ousadia é um acessório?
- quando nao é tatuagem sim.
- pra você ela é pele ou peça?
- é pêlo.





antigas cartas bordadas de minha avó:
toque liso na celulósica saudade.
já não é infância.
enquanto insisto em ler reminscências,
os olhos molham os dedos.
no fundo de um albergue

nada vai mudar
os sapatos continuam no mesmo lugar
poeiras dos idos
incertezas dos vindos
e os pés pra cima
bilhete de geladeira pras horas de fome

sim.
era isso que você queria ouvir.
vamos ser óbvios já que isso tanto te agrada:
eu gosto de você-
para o humanitário que sou,
que ama todo o mundo e gosta de poucos,
isso é grande coisa, muita coisa.
gosto desde aquela época, desde sempre.
nunca foi diferente.
antes que seu ego idiota infle
-como já bem prevejo-
não vejo muita graça neste fato,
mas apesar disso há salvações.
por exemplo: o seu cheiro de xampú,
o seu hálito e os cigarros camel.
os meus acabaram,
o humor e o saco pra grandes revelações também.
vou comprar cigarros.
mas volto.
volto uma hora melhor,
mais humorado e menos abstêmico.
(me refiro a cigarros e não a sexo, babe)
beijo,
João
10:17hs p.m.

silêncio dos passos únicos
numa noite já finda.
um cigarro pra distração,
um vento que toca a mão
e um caminho óbvio em meio a mim.
ajeito os óculos ausentes na face:
hábito.
rio de minhas manias
e vago.
meu vesper palatino espera na janela na meia tarde azul provo de um bolo de limão feito por mãe. ajeito creme, aliso lábios e me perco em paladares finos- eu que tenho na boca, a facilidade das palavras grossas. a pressão na língua me lembra a sutileza do seu gosto posto- costas nuas sustentadas sob meus lábios. lembrança absorta que dispensa meus olhos. avanço no horizonte, tilinto garfo no prato e volto á minha janela, melhor seria te ver contra ela. saudade e fome dá gula- penso. esperando pela noite, adjunta sua, aperto migalhas com um garfo insistente. ansiosa aguardo a primeira estrela , o fim do bolo e a boca sua a pendurar os sorrisos meus .

torpe é a noite que me toma em desanestesias
olhar digno sobre mim e minhas importâncias me perguntam:
percebe?
- se?
titubeio,
cerro os olhos em profunda consideração.
confusão.
é difícil dizer de onde falamos e calamos ,
ainda que sempre noturnamente de um terceiro andar
que me eleva em submissões várias.
terrea e horizontal numa cama escura
de onde vejo minhas estrelas a desabar antes da supernova.
eu durmo submersa donde subversões perveseiam- se em hibernações minhas.
sim.
quando?
é a pergunta que me toma,
que eu me dou,
que eu laço e me lanço como num encontro.
quando é que se dá a verdade de mim mesma?
quando é que vai aprender a inverter eixos?
blá, blá, blá noturno não me esquiva de mim.
não espero mais telefonemas meu,
ainda que guarde, distraidamente,
meu próprio número na agenda.
tento o desvicio de dependências tais,
as mesmas do "não-mais".
não escolho, mas não por falta de vontade.
verdade.
coleciono então atada, desejos que se acumulam e bonificam.
um dia eu troco,
troco e deixo troco pra uma vida que anda me pagando mal,
turvando meus olhos e enganando meu tato.
cartesianamente me fodo e em hipótese alguma considero.
há que tomar atitudes,
ouviu?
ouviu inércia minha eu?
ouço do fundo de um quarto de penumbra
onde recomponho a maquiagem pra uma vida fácil-
habilidade que não borra em momentos de verdades,
raros.
cosméticas próprias essas a que me inventei
fixando nos tons escolhidos a lágrima represa num riso constante,
distante.
num olhar conhecido,
aquele que avulso de um corpo ébrio,
preserva-se a sobriedade de um dor pungente que não cessa e nem adormece.
dramim de mim,onde repouso ou não ouso?
com esses mesmo olhos considero-me.
resta-me a eles,
eu lacrimejando minha história de um rastro salgado de verdade
necessária para um sorriso doce.
consternada olho ultima vez pelo escuro dos ultimos minutos de um quarto.
as estrelas do teto não brilham.
humilde excessa ,
agora em constelação própria.
das apresentações II


sensitiva de si acreditava demais nos antepassos.
tropeça sim:
mas era a vida.
insistia no self idem pra sempre,
desde que nunca fosse diferente.
ela que dobrava destino só pra não contrariar,
ela que contrária agradava-se assim
pra viver de facilidades sentimentais.
tinha chavões de uma vida amena
costurados em camisas de força ortodônticas - não rangia.
sorria
sorria na repetição tola de dentes dormentes,
onde só os olhos não falhavam na missão da honestidade.
eles sim,
parados guardavam o desespero inteiro
de uma vida imprevista,
não lida nos poros óbvios da superfície inventada.
oca emprestava a sua boca em troca de não ser-se.
cerceava-se.
sóbria em excessivos tons pásteis bricolava existências viciadas,
porta-gestos de repertório restrito.
ignóbil alienava sonhos numa caixa-de-música clichê no fundo da gaveta.
por que?
ela marta.





quito dívidas passadas com presentes silenciosos.
tenho pés de plumas
quando preciso ousar batidas íngremes,
percebe?
tenho vigas firmes nas sensibilidades ressentidas,
mas nem mais choro.
eu que aprendi a gostar de rímel.
não, não é escapismo,
é um olho alongado enfeitando um calo de vida.
pra minhas amarguras,
essas aí,
adoço vozes.
eu amarga que não falo "argh".
falo "eca" a morrer de rir.
eu assim,
que descubro diariamente pintas e estrelas,
enquanto enterro,
persistentemente,
meus mortos vivos.
não há outro jeito:
o meu escárnio se revela sorrateiramente,
na aparência frágil e inocente.
sou caçador em pele de cordeiro,
mas tenho um lobo-star no meu espelho
(autografado).
eu foda.
aprendi a gostar de rímel.
e de mim.
amplexos-lunares lembrados ao alvorecere
ele tem um abraço tão forte,
mas tão forte,
que sempre me deixa mais apertada
que são jorge em lua minguante
nascitura

uma esperança reside muda e anônima no segundo que se segue
firmeza contida suficiente para preparar os joelhos para uma queda
e os braços pra vestir as asas.


das apresentações I

marta sofria de uma doença crônica:
seu nome
o fosso da palavra-osso ou caveiras de sentidos ou leituras de um caderno antigo ou quem foi afonso penna?



pensamentos assíduos rondam metáforas antigas:
a palavra antes tão dita, agora guarda o vácuo do precedente contido sentir.
pra onde foram estremecências, entrelinhas & intuições fisgadas na ponta sutil?
um sabe-se lá resigna minhas insistências.
no cemitério de meus sentidos, vago amnésica e incauta,desacreditada dos fantasmas que antes em arrepios me açoitavam.

[buuuu...]

de repente não cabe a ninguém entender, não te cabe, não me cabe.
excedo sim, intangivelmente em sensações que não controlo e nem nomino.não domino.

tento o luto.
balbucio palavras mortas enquanto abandono senticências necrosadas.

sem melancolias, caminho viva, em corpo e texto, pela afonso penna.
numa tarde de sol sem bengalas a torturar uma rua calçada, um menino sozinho, um estilingue, um gato e um revolverzinho vermelho e prata. um menino ainda sozinho. uma concentração agachada de quem aprendendo está a inventar outros que caibam, a principio numa vida inteira (nem que esta vida inteira padeça de vinte minutos apenas antes da mãe gritar um banho & bang-bang). o gato o esquece, não tem jeito. o estilingue apetece inércia de uma existência corrompida - e o menino o entende. um tiro e a surdez impactante do impulso. sonoplastias infantis convulsas percorrem as lembranças de dedos empunhados. a solidão e um corpo a distrair o tempo, gritar no ouvido dele e esconder até que aquele, cansado, se mande. eu mandava. mandava num mundo meu e em qualquer extensão que neste ousasse. aprendi cedo a mandar pra puta-que-pariu, encaminhava a ela vários e vários recônditos desagravos que amarguravam minha, até então, infância. apesar dos angustiantes segundos arrastados, que não me deixavam crescer, sofria-se em perder tempo com vazios intangíveis. aprendi cedo a descartar o que, com certeza, não me servia. (ainda não aprendi a ter certeza.) a mim é fácil o descolar-se de. : decolar ecos que só se repetem se eu gritar primeiro, como no quarto vazio dela - o surdo quarto de uma avó que lia lábios e de paredes que tinha ouvidos, imitavam-me. ela sorria e eu cerrava olhos como quem se esforça pra aprender a repetir, mas era sorriso. eu a repito. sem tentativas de. colo infâncias descascadas em meus dias hostis, colo cheiros de fruta, guarda roupas mistérios, colo os dias nublados, meu olhar enuviado e a lucidez que eu me postava, quando tempestades se encostavam em minha montanha. imito-me já que aquela lucidez nunca entendi, já que depois de mim nunca mais me alcancei. a mesma lucidez desse menino que inventa metáforas pro resto de uma vida, enquanto rabisca com gravetos um chão de areia e posta um revolverzinho no short de naylon. aprendi, como ele agora, a sonhar e a me defender do quê. "pra quê?"- me pergunto colocada de mim, enquando ando a me perder em revoadas memórias.uma esquina e eu me percebo sem meu revolverzinho."em que chão rabiscado eu o deixei?"
ainda que insistisse, frustava-se.
aliás, principalmente por.
faltava-lhe , nessa tanta vida ressurgida,
a letargia necessária inconquistada,
exatamente aquela,
que transforma mãos incompletas em eternidades-
sete dedos na mão como caminhos a apontar.
afobada por esses apontamentos,
ela ríspida prepotente,
pulava muros e se pardeava em noites tais.
em vão e em plurais mais:vazios.
na escuridão do tombo surdo
e dos incomensuráveis segredos dos indivísíveis,
ela seis,
desapontava-se ao olhar seus dedos mutilados.
uma vida a lamentar uma impotência contida em passado fel.
ela,
doce
e não mais tão felina.


ficaram-se os anéis.

vertigem

há sim uma observância abissal
que a percorre em fosso.
abre a porta numa relutância qualquer,
insiste.
sobra só uma côncava boca no espelho do elevador,
um tédio na bolsa,
o cabelo em franjas,
um batom insistente,
uma respiração constante,
os cabelos arrumados,
uma distração na imagem
"um poema dela"
as chaves na mão,
o coração e os pés...
...no chão.

ela que agora, térrea, traça olhos horizontais a fim de quedas menores.