29.12.09

:: dos olhos mágicos

sim, eu poderia continuar a desenhar minhas estrelas nas tuas mãos, cartografias aéreas ensaiadas em previsões tendenciosas. poderia continuar a nublar os olhos pequenos com as cores turvas que coleciono. poderia continuar a dividir contigo contrastes a nos proteger de luminescências. meus óculos, suas sombras. poderia miliuma vezes, antes de morrer, viver as histórias que a gente tanto gosta, escrevendo legendas particulares em cenas ineditamente protagonizadas. poderia continuar a marcar sua carne com as cores da minha madrugada - presença. poderia continuar a espalhar meu perfume por coisas de seu domínio, só para não deixar que você, independente e seguro, me esqueça. [som de piano, impromptu, sussurro: don´t forgive me] poderia escrever, numa gramática reconciliada, todos os tempos do mundo. inventar eras, eternos, tragédias, desastres e linhagens.
mas não é tempo ainda.

por isso, há que se guardar o amor para o apocalipse que advêm, para que entre escombros, te flertar com olhar certo e adormecer firme e concília juntando meus cabelos aos teus.

sussuro[estamos seguros]sussurro

te amo hoje, sem esperar eternidades.sendo assim, aguardemos.
vamos a um café, capuccinos e carícias em números pares.
mas não além.
Demitido o bom senso ficam as coisas, temporariamente, mais fáceis. Lacuna improvisada, gafe anos ensaiada, fenda de vestido bruscamente calculada entre um gesto e outro. Esse improviso, duvide baby, é manipulação. Pura experiência vestida de falsa inocência. Sou eu com minhas garras vazias e grandes, com os caminhos fáceis das presas ágeis. Sou eu testando, milímetro após milímetro, a tonelada sobre seu coração. Sou eu de sempre, avulsa, escolha feita, que sai às vezes soturna pela noite, a fim de aplacar o que sobra de minha reclusão celibatária. Não se ofenda, nem a mim. Se não entende parta com o gosto incógnito na boca, guarda segredo e uma interrogação, guarda historia pra contar a alguém meio místico, matemático, psicólogo ou simplesmente alguém meio sensível. Guarde entre os dentes, num quarto sótão no peito, onde ficam aquelas pequenas historias inacabadas que sobram congeladas no tempo, esperando desfechos misteriosos e corajosos. Essas que ficam por anos ou toda vida. Agora, se quiser entender. É melhor calcular bem as passadas: não ouse mais que minha própria covardia te convida. Calcule comedidamente para não perder o ponto, cara. É trabalho duro para um resultado extremamente estético. Mas a estética de uma história bem construída perdura mais que os mistérios, figura. Uma história destas, paixão arquitetada, suja de restos as noites anônimas, os encontros atônitos, as parcerias ébrias, suja os silêncios de uma solidão qualquer. Eu arquiteto as paixões avulsas e esporádicas como quem sabe do ineditismo de cada uma deles, seculares, imortais e ponto. Historias não escritas, sussurros, qualquer insinuada, improvisada. Eu desembolo e antiquário aquilo que você esconde no sótão. Eu coleciono.

21.12.09

::anotações sobre luz/sombra


Era pra ser doce. E eu sigo desconfiando seriamente de mim mesma e de minhas papilas gustativas, tenho problemas.Mas nem me assusto, te assusto. Queria a claridade turva de um imenso céu nublado, [branco] assim desse jeito, que é para que você se vesse.Há uma casa castanha em meus olhos. Abandonada de céu , ela segue ainda nublada. Há uma pinta na pupila que mancha de meu o resto do mundo, carimbo visual que pontua o que me asseta. Paisagem. Consegue ver isso tudo? Chega aqui perto, olha. Eu olho o seu olho. Eu bem que te disse,lembra?[eu me vejo através do que você me vê].Você ri e acha tudo embolado, meio complicado. Eu nunca fui muito simples mesmo,né. Minto, na verdade sou simples, meu problema é que sou prolixa e mentirosinha. Meu problema é gostar de palavras e gente sem palavras.E isso eu não perdoo,me denuncio - falo de estranhamentos que, alheia, acho serem só meus. Me aproprio indevidamente de sensações e esquisitices, patenteio.Tenho possessividades com essas coisas e você sabe. Quando pressinto entendimento, compreensão do que digo de mim, esquivo. Lá vai [ainda ela] correndo pelas rédeas do sentido, deixando os cabelos para trás, loiros como nunca. Na verdade eu não quero mesmo é que descubram essa armadilha de desenho animado que cavei aqui bem no fundo. Um fosso e um tapetinho bordado. Não quero que descubram esse fosso infundado, onde montei uma gangorra que arrebenta meus joelhos contra a parede úmida. Mas eu digo do fosso e nem sempre digo bem. Isso é minha intimidade, digo do frio e do escuro que é, reclamo. Acho que a casa castanha tem a ver com isso [esquivo de novo mas você me busca], digo da fauna que lá habita, digo do medo [bobo] que ás vezes sinto desses "coisinhas".Falo do fosso e da minha voz lá dentro, falo de [eus].Te conto de musguinhos e de carpetes decorativos, eu comprei [ invisto em amargurinhas].Digo também das minhas coleções, falo dos destroços, falo dos baús semi-fechados , da caixa de mármore branca, de minhas fortunas recuperadas, falo de muita coisa que guardo aqui dentro. Digo até a temperatura da coisa, eu pecilotérmica. Com você algo acontece, para além do fosso e do tapetinho,Survivorman. Você, com suas técnicas dribla minhas artimanhas e olha pra baixo. Eu deixo que chegue muito perto, percebe? Falo tudo e tanto. Eu confio e deixo você olhar ali debaixo do tapete [por mais que não deixe você entrar].

bilhete de geladeira pras horas de fome

sim.
era isso que você queria ouvir.
vamos ser óbvios já que isso tanto te agrada:
eu gosto de você-
para o humanitário que sou,
que ama todo o mundo e gosta de poucos,
isso é grande coisa, muita coisa.
gosto desde aquela época, desde sempre.
nunca foi diferente.
antes que seu ego idiota infle
-como já bem prevejo-
não vejo muita graça neste fato,
mas apesar disso há salvações.
por exemplo: o seu cheiro de xampú,
o seu hálito e os cigarros camel.
os meus acabaram,
o humor e o saco pra grandes revelações também.
vou comprar cigarros.
mas volto.
volto uma hora melhor,
mais humorado e menos abstêmico.
(me refiro a cigarros e não a sexo, babe)
beijo,
João
10:17hs p.m.

silêncio dos passos únicos
numa noite já finda.
um cigarro pra distração,
um vento que toca a mão
e um caminho óbvio em meio a mim.
ajeito os óculos ausentes na face:
hábito.
rio de minhas manias
e vago.

solicitações tardias

peço um alma sensível
e congruente

cruel,
a minha mente.


16.10.09

[abro minhas gavetas em meio a tempestades]
escritos borrados tem cara de acting-out

26.7.07

: para eu me ler [e pra camila eme]

tão entretida está ela nesse mundo diferente. ela anda vivendo, passando pelas coisas com a certeza de um prelúdio. prelúdio de uma leitura definitiva. ela - certa do tempo que tem sobre novos domínios. ela mais simples pra si mesma, sem mistérios inventados pra confundir sua altiva pequenez. ela assimilada e corajosa frente ao álbum de retratos dos anos de coma: distâncias, apesar do colo posto; cheiros sensíveis, ainda que o cigarro; saudades, ainda que persistentemente presente. as fotografias foram para guardar o ponto [save files].as saudades não pedem pra se voltar atrás de pontes queimadas e rumos extintos.ela planeja novos mapas enquanto pára e alinha os joelhos tortos e infantis.isso é importante antes do passo.

12.3.07

::das promessas e presentes I

prometo ser sombra para teu descanso,
ser casa pro seu cansaço,
fazer do meu peito, morno e cheio, o seu melhor regaço.

16.1.07

:: excerto de ana

[O tempo fecha.Sou fiel aos acontecimentos biográficos.Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos?Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional]

#ana cristina césar-a teus pés

13.1.07

mostro os dentes
passo rente
mordo a língua
vivo á mingua
cuspo sangue
bang-bang

poeira nos olhos
mas eu em pé

[cuspida]

5.1.07

:: 1931 1980 2007

"[..]não sirvo para ir mais longe, tentar qualquer dos caminhos que outros seguem à procura de seus mortos, a fé ou os cogumelos ou as metafísicas. sei que você não está morto, que as mesas de três pés são inúteis; não consultarei videntes porque eles também têm seus códigos, olhariam para mim como um louco. só posso acreditar naquilo que sei, continuar por minha calçada como você pela sua, diminuído e doente aí onde você está, sem me incomodar, sem me pedir nada mas apoiando-se de alguma forma em mim que sei que você está vivo, nesse elo que o enlaça a essa zona à qual você não pertence mas que o sustenta sei lá por quê, sei lá para quê."

[júlio cortázar- octaedro]

28.3.06

:: das caixas III

a decadência consiste em guardar numa caixa qualquer, sonhos recentes epidemiados de um mofo impertinente, que amarela esperanças tão antes possíveis. guardar esta caixa é ocupação de toda uma vida, para que não se deseje, não se sofra, não se sonhe para além do tempo, agora tão certamente planejado.

uma sala repleta de ampuletas de areia turva, ampuletas do tamanho da minha unha que roo constamente, alimentando a ansiedade e o medo de poder o que eu queria.trago garras no estômago que se alimentam de mim mesma.


definho.

11.2.06

10:17hs p.m.

silêncio dos passos únicos
numa noite já finda.
um cigarro pra distração,
um vento que toca a mão
e um caminho óbvio em meio a mim.
ajeito os óculos ausentes na face:
hábito.
rio de minhas manias
e vago.

2.2.06

[ Próximo a nós estava um condenado com as entranhas à vista, rasgado do nariz à garganta e com os intestinos pendurados entre as pernas]

Sentada assim, na cama do hospital, pouco lhe chegava. Obnulada ela ouvia em ausência plena o falatório histérico daqueles consangüíneos. Falavam amedrontados de métodos menos agressivos, pólipos, estadiamentos, choros, velas e anastomoses. Ela ali, impassível, a ler livros modestos e histórias pouco alegrinhas. Hoje guardava o pouco cabelo numa faixa roxa que laçava sua cabeça como uma atadura de guerra, tinha senso de humor ainda que levemente oniausente. Folheava o livro molhando a ponta dos dedos magros de onde o anel insistia em não enrodear. Lia, lia enquanto a mãe poluía o quarto com frutas fora da estação [as preferidas dela] e com carinhos em alegorias várias. Não por compreensão ou por bondade, mas por sem vontade permitia os abusos alheios. Permitiu até o espelho, onde a apresentaram para o carcioma que se tornara. Cabeça quase nua, olhos esgueirados pelo fundo do crânio, alvo, calvo e magro. O espelho de expressão ausente lhe sussurrava atormentado:

[- Vês, tu, como eu me maltrato? Vês como Maomé e Ali estão desfeitos, gemendo, e todos esses semeadores de discórdias e heresias? Todos aqui são continuamente rasgados, cruelmente, por um diabo que aqui nos tortura eternamente. Em vão saram as feridas, pois logo ele volta e nos dilacera outra vez! E tu, quem és, tentando retardar a tua pena aí sobre a ponte?]


Ela, convalecida, firme na trajetória costurada em linhas brancas, riu: boca pálida e dentes secos, sem saliva. Pouco importa. Não desse mundo ela só havia ganhado o tempo, solicitado em ofício branco e timbrado, punição. Juíza de si não sustentava a morte pura e clara. Não podia ser simples assim. Guardava no corpo algumas recordações que contradiziam aquela asséptica falta de história - pulso aberto, desperto em vermelho vivo, só serviu como marca de rebeldia intolerante. O caso era mais sério, sabia. Abriu-se com consentimento oficial. Dissecada em vida exposta se dava á observação calma e dedicada de suas mazelas e alegrias. Quantas cores tinha por dentro? Lembrava-se com distância quase científica de arrepios na nuca, de face quente, de corações em disparates, de hiatos na fala embargada, de gargalhadas, lembrava do caderno velho, hoje no fim de seu guarda-roupas abandonado, onde na última página, escrito estava: . Lembrava avaliando honestidade, a fim de extrema-unções pessoais. Sentia cada vez menos e convertia tudo antes cor agora em rígidas letras de hospitais. Passava pela sua cabeça agora o mundo lá fora sem ela, sem seu vago e translúcido vulto. Quando pequena imaginava que não havia mundo, para além de sua pequena e frágil presença, atlas que era em ombros delicados e corajosos. Hoje sabia bem, vagava sem muita pertinência, sem muitos desejos, nem urgências. Lidava com eternidades e com fatalismos tão típicos de sua condição.[ainda sobre a ponte porém certa do caminho]. Agora porém chorava baixinho, ali no canto do quarto, escuro como o medo que sentia. Redimida e decepcionada riu com boca salgada do relógio na parede, do livro pela metade e dessas flores com esperançosas dedicatórias. Riu com dor sabida. Saudou a inevitável visita noturna. Respondendo á pergunta do espelho, ela própria, atônita, relembrou enquanto despedia-se entre os dedos:


[- Nem morte ainda o alcançou, nem culpa ordena que ele sofra aqui - respondeu Virgílio -, mas para que ele possa ter esta experiência, eu, que estou morto, devo guiá-lo por todo este inferno de giro em giro. Isto é tão verdadeiro como a minha presença aqui.

Quando ouviram essas palavras, mais de cem almas se aproximaram para me ver, quase esquecendo por um momento o seu intenso sofrimento.]




[citações da Divina Comédia, Canto XXVIII-]

24.1.06

palmas.duas da tarde.vim aqui trocar dois ou três rancores por notícias suas. minha passionalidade pelo caminho certo e distante de suas idéias. mapa. verde. úmida flora. chuvas e sóis. sento nesse bar infécto tomando essa coca cola e choro. te ligo a cobrar,te ligo pra me buscar. desisto no segundo toque e atravesso a rua sem pressa e sem pagar. pego um táxi e vago por puro abandono e desconhecimento. a exemplo dela[ ] eu também canto o motorista na sutileza embaraçante, enquanto fumo essa porcaria que comprei. a fé eu não driblo, cedo numa esperança desconcertada.aqui não há tantos ângulos quanto imaginei. seus olhos míopes são mesmo assim tão importantes? uma pausa desta na vida, para congelar em fotografias esse fim de mundo? queria ter pesado mais que essa fauna e flora insípida. divago nessas coisas enquanto lembro e rodo anônima por este instante ponto surdo no mundo. lembro da lente ,lembro de outros olhos, menos caros e mais fora de foco. páro sem muito porquê e caminho a pé me perguntando sobre a minha presença: que que eu tô fazendo aqui?

vim ser objetiva, vim atrás desse flash de memória boba, que ainda enche meu saco em algum lugar que não concebo bem. racionalmente - você diria. racionalmente marco um encontro ás oito, chego ás sete, tomo dois uísques pra ficar com aquela cara. gravo em câmera lenta cada movimento desde o início seu por aquela porta inédita de bodega provinciana. fixo som/movimento,som/movimento,som/movimento, sincronizo, ponho legendas e elaboro esse fim protelado, arremessado kilometricamente para um cafundó tropical. quero gravar bem esse momento para preparar lutos e afins, quero te tirar de trás da camera e te pedir um close, destes que carregam na pupila fazendo parecer que ainda há vida. e é isso,meu querido. a gente só precisa disso, pede pro garçon ali tirar, não pergunte muito, faça o que eu tô pedindo, que perigo há, e sorria. fala xis, fala puta que pariu, fala eu te amo ou qualquer dessas bobagens que são passíveis de você, tão covarde escondido aqui atrás de floresta, distância e tempo.dá a mão.plãff.era isso.vim buscar essa foto para meu álbum de ano-velho. faz quantos anos?

18.12.05

ossos quebrados
do parto recente
depois do choro,
a gargalhada.

e gargalhou.


9.12.05

::entre mamonas e naylons

numa tarde de sol sem bengalas a torturar uma rua calçada, um menino sozinho, um estilingue, um gato e um revolverzinho vermelho e prata. um menino ainda sozinho. uma concentração agachada de quem aprendendo está a inventar outros que caibam, a principio numa vida inteira (nem que esta vida inteira padeça de vinte minutos apenas antes da mãe gritar um banho & bang-bang). o gato o esquece, não tem jeito. o estilingue apetece inércia de uma existência corrompida - e o menino o entende. um tiro e a surdez impactante do impulso. sonoplastias infantis convulsas percorrem as lembranças de dedos empunhados. a solidão e um corpo a distrair o tempo, gritar no ouvido dele e esconder até que aquele, cansado, se mande. eu mandava. mandava num mundo meu e em qualquer extensão que neste ousasse. aprendi cedo a mandar pra puta-que-pariu, encaminhava a ela vários e vários recônditos desagravos que amarguravam minha, até então, infância. apesar dos angustiantes segundos arrastados, que não me deixavam crescer, sofria-se em perder tempo com vazios intangíveis. aprendi cedo a descartar o que, com certeza, não me servia. [ainda não aprendi a ter certeza.] a mim é fácil o descolar-se de. : decolar ecos que só se repetem se eu gritar primeiro, como no quarto vazio dela - o surdo quarto de uma avó que lia lábios e de paredes que tinha ouvidos, imitavam-me. ela sorria e eu cerrava olhos como quem se esforça pra aprender a repetir, mas era sorriso. eu a repito. sem tentativas de. colo infâncias descascadas em meus dias hostis, colo cheiros de fruta, guarda roupas mistérios, colo os dias nublados, meu olhar enuviado e a lucidez que eu me postava, quando tempestades se encostavam em minha montanha. imito-me já que aquela lucidez nunca entendi, já que depois de mim nunca mais me alcancei. a mesma lucidez desse menino que inventa metáforas pro resto de uma vida, enquanto rabisca com gravetos um chão de areia e posta um revolverzinho no short de naylon. aprendi, como ele agora, a sonhar e a me defender do quê. "pra quê?"- me pergunto colocada de mim, enquando ando a me perder em revoadas memórias.uma esquina e eu me percebo sem meu revolverzinho."em que chão rabiscado eu o deixei?"

1.12.05

::último close com dedicatória atrás da foto

[então,que seja doce.
repito todas as manhãs,ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce.

quando há sol e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.

mas,se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder.tudo é tão vago como se fosse nada]


caio fernado abreu

29.11.05

caminhando calados.
horas de tréguas,
punhais afiados.
oscilam por léguas,
inimigos ou aliados?

25.11.05

quito dívidas passadas com presentes silenciosos. tenho pés de plumas quando preciso ousar batidas íngremes, percebe? tenho vigas firmes nas sensibilidades ressentidas, mas nem mais choro.

eu que semana passada aprendi a gostar de rímel.não, não é escapismo como dizem, é um olho alongado enfeitando um calo de vida. pra minhas amarguras, essas aí, adoço vozes. eu amarga que não falo mais "argh". falo "eca" a morrer de rir. eu assim, descobrindo diariamente pintas e estrelas, enquanto enterro, persistentemente, meus mortos vivos.

pra viver então, não há outro jeito: o meu escárnio se revelando sorrateiramente,
na minha aparência frágil e inocente. sou caçador em pele de cordeiro, mas tenho um lobo- star no meu espelho [autografado].

eu foda. aprendi a gostar de rímel. e de mim.

19.11.05

::sábado-quarto-escuro


[quero te explicar isso,
te passar este quarto imóvel
com tudo dentro e nenhuma cidade fora
com redes de parentela.
aqui tenho maquininhas de me distrair,
tv de cabeceira, fitas magnéticas,
cartões postais, cadernos de tamanhos variados,
alicate de unhas, dois pirex e outras mais.
não tem nada lá fora e minha cabeça fala sozinha,
assim,com movimento pendular de aparecer e desaparecer.
guarde bem este quarto parado, com maquininhas,
cabeça e pêndulo no coração.
fiz uma penteadeira com bogart e bacall,très chic.
pronto, acabei esse assunto de quartinho cultural,
mas guarde bem-para mais tarde.
fica contando ponto.]


ana cristina césar

14.11.05


::masmorra #vs.25

eu turvo,
algo treva.
eu rondo sombras,
sobras,
celas.
sondo as velas.
escura a especular o claro
de forma íntima,
imersa,
inversa,
aversa a estrelas.

10.11.05

[estão caindo sobre mim cacos sem peso
porque retorno em queda sobre os braços.
volto ao espaço circunscrito,
mas me teme meu corpo lento e bioquímico no escuro,
e lentamente sei que me dissolvo aos quinze miligramas,
seca em queda de paralisia quantificável.

ana cristina césar***inéditos e dispersos]



::letargia

a possibilidade de me quebrar eu
corto
mil-noites-inferno por um dia só eu
troco
alheios olhos sãos e assépticos eu
choco
num espasmo agudo e perdido que
solto
perdida,etérea com olhar gelado nem
noto
me belisca,me assusta,minha cara eu
topo
amoleço essas minhas dormências num
copo
alucino sem sonhos, nem sono me
dopo
meu corpo absorto, desabitado
entorto
o que já não dói, mas ainda arde eu
sopro
e fecho os olhos me esperando voltar


não volto.


9.11.05

:: flashes amorosos #5

as cores da madrugada
na sua carne marcada

[seu corpo guardando meus dentes]

8.11.05

[deve ocorrer em breve
uma brisa que leve
um jeito de chuva
à ultima branca de neve

paulo leminski]




querido,

algo estranho acontece por aqui.
você não acreditaria se não fosse eu a te contar: neva.
sim, neve mesmo, foquinhos frios e branquinhos
como sorvete de algodão [imagino que seja].
estamos assustados,
metereologistas e astrólogos contemporizam,
místicos e visionários arautam desgraças,
temores , fins-de-mundos.
não há flora nem fauna sustentável,
nem sóis e luas,
só um tempo cinza
e constantemente hipotérmico .
mas eu guardo uma felicidade inconfessa,
é tudo tão bonito.
é como se eu não tivesse mais sozinha,
é como se eu fosse tempo,
é como se eu me estendesse ao mundo,
é como se eu doesse menos,entende?[eu sei que sim]
a virtude disso tudo é que falta-se muito no frio
para se ter sentimentos extremamente passionais:
estou adormecida e segura aqui,
respeitando, de janelas fechadas,
a delicada ecologia de meus delírios.

[ouvindo o piano]

quem sabe você aparece, há tempo.
escrevo na semana que vem.

beijo.





[uma consideração,um epitáfio-prefácio]

6.11.05

::procrastinações tanatológicas

tem dias que pedem morte.
eu morta peço dias.
só alguns dias
pra decidir uma tal eternidade.

hades dorme
e eu me deixo ás erínias.




::tsuru #1000

a amizade encontrou com a dor e tentou convencê-la a ir embora.
tentou,tentou,tentou e nada.
a amizade ameaçou: [dor,eu ainda te dobro]
dobrou,dobrou,dobrou: mil tsurus

e eu guardo todos:
aqui

3.11.05



sem os olhares tais, ela volta autômata.
trazendo mini-rosas, se enfeita.
nesse sábado à noite ela resolve abrir feridas e a janela.
da distância olha [todo o resto].
projeta desamparos: quarto vazio, espelho incompleto, a cama intacta, intacta como a memória viva e cheirosa, dobrada em algum canto seu.[aquiescências]
senta na cama como se não quisesse espantar nenhum fantasma, abre a caixa: cartas antigas, fotos conjugadas recortadas, lembranças de viagens, bilhetes de geladeira,
cheiros, fomes, sonos, sonhos.

[de que minha vida foi feita?
de restos avulsos, de sonhos, de sustos,
guardados numa caixa escondida?]

alisa com carinho cada passado, devolve à caixa, lado a lado, dores e alegrias convivendo.
pensa no que há de devolver e pedir, e rabisca um bilhete à caneta.

[jorge]

se debruça cansada sobre o passado comprimido.
um nome apenas pulsa e tem sentido.
rabisca de novo o bilhete:

[-quer fazer o favor de eu te esquecer?]

30.10.05

::bilhete de cabeceira

não pude te esperar acordar por que já sei como é.
tem café na cozinha, forte, do meu jeito.

[rastros meus pela sua casa,risos]

hoje se der te ligo, fique á vontade também para tanto.
não pense em mal-estares, sabemos de tudo.
a grande verdade é que já tivemos muito mais saídas.
isso antes.
hoje, colecionamos velhos mapas.

[ao menos os velhos mapas levam a lugares que gostamos, seguros,
ainda que irritavelmente conhecidos.]

beijo com amor,
L.

*ps:suas paisagens continuam bonitas.

28.10.05

::anotações para nanci

ela tem vincos bem fundos onde me acolho céu e durmo
colos , joelhos, abraços, ombros encaixe,
coração largo e espaçoso onde eu posso folgada
eu tenho em mim todo amor que ela me deu
e dos carinhos todos não há um que se perdeu
guardo beijos na mão bem fechada pra quando eu tiver medo
guardo abraços no vento pra quando ela não puder
guardo historias infindas para quando eu não dormir
guardo saudades tão grandes que abonam todas as mágoas
guardo as risadas mais lindas, o amor mais puro, o olhar mais meu
guardo minha mãe no melhor lugar que ela me deu.

25.10.05

[o travesseiro

fui ter com virgília; depressa esqueci o quincas borba. virgília era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. era ali que eu costumava a repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. e, bem pesadas as coisas, não era outra a razão da existência de virgília; não podia ser. cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o quincas borba; cinco minutos de uma contemplação mútua, com as mãos presas umas nas outras; cinco minutos e um beijo. e lá se foi a lembrança de quincas borba...

escrófula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?]

-machado de assis.memórias póstumas de brás cubas.o travesseiro-


hoje sem versos [isso me basta] só precisaria do meu travesseiro.

22.10.05

distâncias

tenho a cabeça no lugar
e o coração há um polegar

19.10.05

cajado

[sinto muito pelo susto]
lá fui eu

regresso com dádivas várias
e uma mancha no coração

as dádivas eu divido
a coragem não.

5.10.05

anotações incompletas

inventos histórias
memórias
te lembro até do que nem vi
ouvi, vivi, senti

te amo fácil
impáfido sentimento
te quero intácto.
alento.

4.10.05

sobre o samba

o samba é feito de letra encarnada
de alma lavada
de dor estancada

um samba é a ultima lágrima pendente
é o ir á forra com a esperança crescente

é sacudir a inércia do amor perdido
desperdiçar incauto o riso contido

o samba é sempre a alegria de amanhã




[samba me lembra dor de mulher e consequentemente esse:


samba-canção

ana cristina césar

tantos poemas que perdi.
tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
e um dia emburrei-me,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz.

]

2.10.05


"Gosto de dizer que tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a nem mora com alguém. seja uma pessoa banal igual a mim, seja um unicórnio, salamandra, elfo, sereia ou ogro. Eles não dividem seus hábitos. Nonguém é capaz de compreender um dragão. Que poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro) sempre batem a cauda três vezes, como se estivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja a sua maneira desajeitada de dizer: que seja doce." [caio fernado abreu]




o meu dragão não dorme nunca
quando eu atenciosa me atraio
ele fecha os olhos e finge

o meu dragão me comeu
incompreensivo: tostou percepções
me condenando a vigílias constantes

o meu dragão me psicotiza em cobranças
exigências e manhas quentes
me presenteia sorrateiro com olhos móbiles
a distrair minhas outras ocupações

mas o meu dragão é inocente
de olhos abertos e respiração fenecente
espera infantil pelas borboletas

o meu dragão eu entendo
nada adianta
o meu dragão no escuro chora, incongruente,
medroso de claridades
e da solidão a qual as vezes me abandono



o meu dragão, num átimo-ato-falho
não mais entendo
sinto em rasteiras verbais

o meu dragão sou eu


26.9.05

a menina que conheceu odete
sabe do lúdico e do destino
de almas passadas, penadas, lavadas
sabe do cheiro das madrugadas,
da voz de pássaros, de gatos intactos.
[silêncios]
sabe do dengo e da ralha,
da língua que lambe e talha,
sabe esconder espelhos em dias de trovão,
sabe inventar cantigas para o coração,
[larituna larilá]
sabe resmungos e palavrão,
sabe podar rosas no jardim
sabe que galinha é de comer, tem meio e fim.
sabe o tamanho de uma mulher
e a largura das meninas estiradas entre terra e céu,
sabe acompanhar novela, ler livros de faroeste,
roubar na palavra cruzada,
sabe que libélula é formiga alada.
sabe chorar e dar gargalhada,
de silêncios e de falazada.
sabe o peso do coração, sabe de sins e de nãos.
sabe calar o que não entende,
da lágrima que por um fio pende,
sabe mundos, fundos,compreende.


essa menina de avó
na garganta tem um nó.

22.9.05



observâncias de melhores olhos
deitados, horizontais sobre planos altos
daqui distante vejo seus relevos
tomos azuis nas mãos que nunca toquei
daqui vejo poros, ensejos
segredos que ainda não sei
vejo curvas de [esses]
sotaque que não alcancei
vejo belo horizonte

que encontarei um dia numa cidade tendenciosa
onde há ladeiras que só não me cansam mais que essa saudade

15.9.05

bilhete de reivindicação

esqueci minha boca nas tuas agressões,
nestes dias últimos não tenho mordido ninguém.
sabe o que há?ahn?ahn?
sabe do drama,da trama,meu bem?
por isso peço de volta minha boca com todos os adicionais:
sangue nos dentes, saliva seca, hálito de gozo,
batom prenssado, sussurros qualquer.

e não se ofenda tanto, boca nervosa é péssima tranca.
devolva.
e não se anime.

ana c. escreveu e eu te repito
"pensando em você não é bem o termo"

14.9.05


fígado

eu sou abutre
ou bêbada?

10.9.05



de bêbada
bebo o que não sou eu
meu gosto meu tato
um eu em mim esqueceu
insisto lascivo
aquilo que não é meu
despisto esqueço
aquilo que me esqueceu
vomito desperto
aquilo que em mim doeu
acordo rejeito
mais um dia masmorra nasceu



8.9.05


inscrições no café da manhã

desato seus olhos
te amanheço
com um beijo e meu mundo


verborrágica

angústia dissimulada
falafalafalafalafalafala

qualquer escuta é uma disputa
entre a dor e o silêncio

5.9.05


sou homem sozinho no templo.
minha falta de fé,
eu aguento.

3.9.05

eu sou uma música triste tocada num sábado de sol pela manhã

31.8.05

ouso batom rosa e punhos fechados.
pouco sei de mim:
femina felina tosca porca parda
rubra quase morta,
abro breu ao fim da noite.
eu, que com estrelas empunhadas nos dedos,
astrologizo saídas táteis
nos efêmeros corpos circundantes.
em um copo docedose de martini horrorizo-me
meus cabelos conhaque a cheirar cigarro,
minha lingua mordida,
meu medo no bolso,ouço.
ajeito a máscara e dançodançodanço danço dançodanço.
descabelada, derramada,
perco brilho inebriada:
estrelas pelo chão,
dedos nublados,
os olhos borrados.
na frente do espelho só sei de uma coisa:
debaixo disso há mais que isso.

30.8.05

saudade em riste
lembrança insiste
fui dizer seu nome
tive um chiste

26.8.05





adormeço no altar
que eu fiz para
um deus meu
que nunca veio.


rezo pra mim.

25.8.05



pobre é tua alma
alva

rica é minha palma
malva

espalmei o mundo todo
cromática
aprendi delicadezas

23.8.05



terceirizados

o bicho come
a fome
quando
eu o como

17.8.05




caixinha I

procuro pelo medo
que em mim
se faz segredo

coragem,
ás vezes,
é bobagem



16.8.05


questionamentos pra além de distâncias

você tem cheiro de quê?

12.8.05



recado aos criativos profanadores da carne alheia

você que fica aí me inventando:
pára com isso,
eu já existo.

9.8.05




sombra preta

olhos turvos
cílios curvos
e eu do avesso.

8.8.05



"minha dor.me dá a mão.
vem por aqui longe deles.
escuta querida,
escuta a marcha desta noite.
se debruça sobre os anos neste pulso.
belo,belo pulso." [Ana César]



solta teus caninos no meu corpo
enquanto prendo teus cabelos em minhas mãos
sossega teu desespero em minha boca
que eu desespero meu sossego no teu tesão




da didática do abraço ou da amizade sem tempo


é do árduo
esse trabalho de travar destinos
reencontrar meninos
ancorar desatinos,
eduardo
eduardo carrusca
cessaram-se as buscas.


6.8.05

querido,

algo estranho acontece por aqui.
você não acreditaria se não fosse eu a te contar: neva.
sim, neve mesmo, foquinhos frios e branquinhos
como sorvete de algodão [imagino que seja].
estamos assustados,
metereologistas e astrólogos contemporizam,
místicos e visionários arautam desgraças,
temores , fins-de-mundos.
não há flora nem fauna sustentável,
nem sóis e luas,
só um tempo cinza
e constantemente hipotérmico .
mas eu guardo uma felicidade inconfessa,
é tudo tão bonito.
é como se eu não tivesse mais sozinha,
é como se eu fosse tempo,
é como se eu me estendesse ao mundo,
é como se eu doesse menos,entende?[eu sei que sim]
a virtude disso tudo é que falta-se muito no frio
para se ter sentimentos extremamente passionais:
estou adormecida e segura aqui,
respeitando, de janelas fechadas,
a delicada ecologia de meus delírios.

[ouvindo o piano]

quem sabe você aparece, há tempo.
escrevo na semana que vem.

beijo.

30.7.05


solicitações tardias

peço um alma sensível
e congruente

cruel,
a minha mente.


11.7.05

conselhos da ratoeira


“mantenha seus amigos perto de você, e seus inimigos mais perto ainda”

eu durmo comigo

17.6.05

náuseas
na ausência da nau
me afogo em mal estares

9.6.05

banho quente
chá de camomila
pão com mel

invento minha boa noite
como quem faz dobraduras


[mas e os sonhos?
sonhos são feitos de quê?
]

31.5.05

hoje tive conversas tortas com um menino certo
ficou tudo bem: eu canhota , ele destro.

23.5.05



me dá mais um pouco disso?


[experimento batons em dias nublados]


15.5.05


malva era a cor do céu quando eu a deixei ali.
furta cor entre lágrimas e rubor.
sem palavras, sem silêncios,
no terrível terreno dos soluços que reclamam a carne rasgada
na tentativa inútil de amenizar a dor.

12.5.05

ainda ela

ás vezes quem passa
é também quem espera

7.5.05




no amor não tenho finais felizes
Cinderela não calça 34


2.5.05

das proezas amorosas

guardo um amor que me excede
numa caixa de fósforos bordada.

26.4.05

lacrimejo
bem-te-vejo
vôo triste da manhã
cinza como a rubra alma
pode ser?
pode tudo,pode escuro
pode penas e compaixões
só não pode ser tarde demais.

20.4.05

querido,

hoje coloquei para quarar na grama sóverde
o enxoval nosso amarelovelho.
tão bonito ele é, que só de olhar
eu te amo mais.

sonhei pela noite antiga com uma cama branca,
tão branca quanto a sua lívida testa molhada
naquele dia dentro do rio.

esse mesmo rio onde hoje, ainda antiga,
lavo minhas saudades.
o mesmo rio que me salva em alvuras
ou que eu salvo, sustentado que é pelas minhas dores.

mas hoje tenho o rosto seco
e nele um sorriso firme
que se esgueira entre os varais de vento.

se você pudesse ver...

12.4.05

querido,

santa está louca e me atormenta.
pra você ver, olha, ela disse que eu não devia te esperar
e aceitar os cuidados do albinossombra lúcio.
disse até da sua morte.
vê se pode?
vê.

fiz como você pediu
- recado no balançar do bambuzal, eu li-
"não dei confiança"

tenho tanto medo da loucura,
quase o mesmo medo que tenho em te perder.
medo das coisas roxas.
doidivez e feridas abertaseternas são dessa cor.
medo das coisas que a gente só sente, sente, sente,
sente quase morrendo,mas nunca entende.

eu continuo sentindo.saudades no caso.no nosso.
sentindo e te esperando.

volte logo ou quando puder.
beijo,
sua mulher.

6.4.05

desapegos diários
é o exercício da boa morte.
possessiva de nadas que sou,
vivo mal,
mas tenho alternativa:
dias contados
e entregas voluntárias.

tudo, menos nada.
hoje eu estive com o diabo
e ele me contou ótimas piadas.

taciturna, como diriamos, nem fui mais.

pra despedir uma reza:
segue forte que é boa a sorte.

achei isso simpático.

5.4.05

querido,

hoje palavras na antiga catapulta
acertam em cheio as coisas do meu dia.
meu nariz continua sangrando,
reagindo á saudade,
ao mundo seco sem as minhas umidades condicionais.
eu levanto a cabeça e maculo alvuras
no magenta próprio de mim.
neste calor que amortece qualquer sentir
nebulosidades eu queria.
até tentei neblinas ontem á noite,
mas você,
bem sabe [tsc,tsc],
concreto que é não permite.

aguardo novas previsões.
uma carta sua.
ou uma encomenda sem remetentes.

[mande lenços]

3.4.05

á meia luz

de súbito
um beijo
suspenso
penso
suspeito de
um jeito
seu peito
minhas queixas
seu queixo
me mexo
eu?
...deixo.

1.4.05

acácias noturnas
colunas
compasso

secreta,
maçono silenciosamente
um céu de estrelas ímpares,
orfãs de contelações,
onde eu possa
me maternalizar.
chuva de primavera -
uma menina ensina
o gato a dançar

issa kobayashi


o amor impregnou três frases
numa fotografia repartida.

eu colo.

30.3.05

sonhos abrem pálpebras:
janelas invertebras,
onde futuros contorços
se esgueiram no para-peito.

[para corpos
para-quedas ciliares
que anti-paralisam
a aspereza de voar]

28.3.05

terceira cena de um filme triste

desabores
desamores
descolores

amargo de dores
em preto e branco
num filme antigo
que ninguém mais vê.

por que então não deixa de doer?

24.3.05

glitter

sapatos de boneca
para uma menina mulher.
dissimulada,
o que mais que ela quer?

21.3.05

das (in) condições do amor

apelo ao elo
de peles e pêlos:
atropelos

15.3.05

geniosa que é,
ela queima lâmpadas
e desrealiza desejos.
escura e sozinha.

11.3.05



masmorra 24

eu turvo,
algo treva.
eu rondo sombras,
sobras,
celas.
sondo as velas.
escura a especular o claro
de forma íntima,
imersa,
inversa,
aversa a estrelas.

2.3.05

anja

que fazes que andas tão cansada?

aborrecida, os dias te aborrecem
com suas pedrinhas, e ainda nem
podes dar a rufada da semana.
compromissos, contas e tentativas
de pegar a promoção do supermercado.
no quarto branco, os gatos sentem saudade,
mas és muito atenciosa para que sintam falta.
espreguiça-te com força
e afugenta um pouco o sono.
faz tua bondade com cara de malícia de hoje
e dorme- sonha porque amanhã é outro dia
que tentarão te tomar as asas.
é outro dia para pregares peça a quem tenta.

por Marcio Yonamine em Parachutes.01

28.2.05

christalina

"será feliz enquanto não enxergar a própria imagem"
águas do rio,
eu idem,
estou de passagem.


25.2.05

vestido cinza

moça triste quando passa,
rosas rubras despedaça.
apaga estrelas com seu olhar nublado.

moça triste quando passa
alegrias ela afasta
tomba sobre si ombros curvados.

moça triste quando passa,
já sem graça,
só reclama um coração.

24.2.05

ele faz anos
e eu não faço nada.
sem felicitações tolas,
sem parabéns
e gestos além
do que se pode mover.
são os silêncios necessários
para que na distância
continue o sem-tempo.
e como eu vivo disso...
de carpe-diens guardados
em ampuletas viciadas.
todos os dias a mesma prisão.
então,
não é do sem coração,
sem memória
ou similar.
é do intuido,
resguardado,
do relevado,
revelando e
e extirpando temporalidades
que sequer importam.
o que importa é o retrato
bem desenhado do quarto,
que eu fiz onipresente
pra quando eu precisar lembrar.

22.2.05


nuvens,
desamparada arrisco um passo.
vento,
levanto os olhos já sem alento.

corajosa eu me dou em corpo-porta-chuva.
que perigo me cerca além daquele que carrego?

ternura em pingo grosso, descubro.
delicadeza contida num arroubo de lágrima.
por chora?


tempestades então, eu nublada consolo.

11.2.05

segredo I

meus versos brancos dormem inconfessos na sua mochila amarela



e você nem mais se lembra.
e eu quase esqueço.

8.2.05



vasculho a memória insistente
atrás de letras, tatoos e veias salientes,
de olhares do olhar pequeno,
de delicadezas do sentir ameno.
vasculando outros olhares,
invisto avatares e
novas palavras a cobrir
livros brancos:
ele sabe do meu alfabeto,
esse mesmo que não existe,
enquanto invento verbos e estados pra ser.

eu curiosio enquanto convenciono: o amo.

6.2.05

aos interessados

hoje,sozinha,
tive frio vespertino,
cachecol e capuccino

hoje eu até usei batom

4.2.05

ao pequeno dragão-estrela, rei inocente dos meus nagas


meu dragão não dorme nunca
quando eu atenciosa me atraio
ele fecha os olhos e finge


o meu dragão me comeu.
incompreensivo,tostou percepções
me condenando vigílias constantes


o meu dragão me psicotiza em cobranças
exigências e manhas quentes
me presenteia sorrateiro com olhos móbiles
a distrair minhas outras ocupações


mas o meu dragão é inocente
de olhos abertos e respiração fenecente
espera infantil pelas borboletas


o meu dragão eu entendo
nada adianta
o meu dragão chora, incongruente, no escuro
medroso de claridades
e da solidão a qual as vezes me abandono


o meu dragão,
num átimo-ato-falho não mais entendo;
sinto em rasteiras verbais.


o meu dragão...sou eu.


2.2.05

interrogativa ponho a máscara e gargalho reticente.
não te aguardo, nem pergunto por onde anda o amor.
há um calo no meu silêncio, eu vejo.
verbalizo então minhas híbridas palavras pontudas,
nas pausas obtusas de seu blá blá blá:
escárnio agudo nas sangrias de minhas desilusões.



7.1.05

crônica

era uma vez
o mundo

(Poesias Reunidas,Oswald de Andrade)

*se o mundo que é mundo foi uma vez só
porque meus problemas serão inúmeros?
tolice.

6.1.05

bilhete ao amor ausente


querido,
o dia continua atípico com céu temperamental.
eu continuo com os adjetivos excessos, mas isso você aí já sabia.
ando surda e anoitecendo rápido demais para contar suas estrelas.
acho que me perdoa por isso, não?

5.1.05

das arrogâncias I


eu vomito auto suficiência
segurando minha própria testa.
falseio meu bem estar e ponto.
"dispensa o mundo, vai."
eu me basto no casto desespero.

6.12.04

paciência

as favas andam excessas
não há como mais remeter
de absolvições ficam promessas
que impotente não tenho como deter

3.12.04

pela última página

para escritores de reticências e leitores reticentes

na minha agenda de ócio indócil
retomo frígida incompletas leituras:
campos de carvalho,
leminski no gargalo
e cesar em ana cristina.
confundo-me em pontuações metafóricas,
tempos interrompidos
e mortes de livros lidos.
não sei do ponto,
nem da reticência.
sei da vírgula,pausa,
esquecimento,luminescência.
alguém mexeu na instante:
nesta estante não cabem insistências,
nem desistência.
cabem marcadores de letras e ponteiros,
passagem em aspas e alteregos sem máscaras,
premeditar finais ao livro dado pelo meio,
preliminar olfatos e tatos no celulósico portador,
tesear aproximação
e de repente:
tesão
as letras no sentido-gozo de exautão:
e é FIM

30.11.04

da noite e das damas dela

enquanto a noite dorme,
esquecida de amanhecer suas palpébras,
ele acorda enorme
gangorrando em móbiles luzidas:
sirius,mirgel,gacruz,albedaran.

despenca assim, mole e fofo,
ele nas minhas premeditadas nuvens.
eu deixo pulos com as caras tais,
espelho de suas estrelas,
dois olhos a mais.

constelações invento, outro me inventou.
em mim, ele estrela completa:
seus olhos em zodiacal traçado de um destino.
eu vivo.
com ele.

23.11.04

constança era maníaca bipolar
cristiana era pagã
letícia era triste
ana era desproporcional
maria era complexa
clara era obscura
norma era anárquica
estér era nublada
glória era uma fracassada
bruna era "loira"
alva era morena
patrícia era hippie
lisa jamais esfoliava
rosa tinha cravos
e aurea vendia bijuterias

todas eram
só não assinavam as suas sinas

22.11.04

divagações I

cap. "ousam dias ou são noites? "

- veste-se novamente de ousado.
- ousadia é um acessório?
- quando nao é tatuagem sim.
- pra você ela é pele ou peça?
- é pêlo.



21.11.04

no fundo de um albergue

nada vai mudar
os sapatos continuam no mesmo lugar
poeiras dos idos
incertezas dos vindos
e os pés pra cima

19.11.04

bilhete de geladeira pras horas de fome

sim.
era isso que você queria ouvir.
vamos ser óbvios já que isso tanto te agrada:
eu gosto de você-
para o humanitário que sou,
que ama todo o mundo e gosta de poucos,
isso é grande coisa, muita coisa.
gosto desde aquela época, desde sempre.
nunca foi diferente.
antes que seu ego idiota infle
-como já bem prevejo-
não vejo muita graça neste fato,
mas apesar disso há salvações.
por exemplo: o seu cheiro de xampú,
o seu hálito e os cigarros camel.
os meus acabaram,
o humor e o saco pra grandes revelações também.
vou comprar cigarros.
mas volto.
volto uma hora melhor,
mais humorado e menos abstêmico.
(me refiro a cigarros e não a sexo, babe)
beijo,
João
10:17hs p.m.

silêncio dos passos únicos
numa noite já finda.
um cigarro pra distração,
um vento que toca a mão
e um caminho óbvio em meio a mim.
ajeito os óculos ausentes na face:
hábito.
rio de minhas manias
e vago.

18.11.04

meu vesper palatino espera na janela na meia tarde azul provo de um bolo de limão feito por mãe. ajeito creme, aliso lábios e me perco em paladares finos- eu que tenho na boca, a facilidade das palavras grossas. a pressão na língua me lembra a sutileza do seu gosto posto- costas nuas sustentadas sob meus lábios. lembrança absorta que dispensa meus olhos. avanço no horizonte, tilinto garfo no prato e volto á minha janela, melhor seria te ver contra ela. saudade e fome dá gula- penso. esperando pela noite, adjunta sua, aperto migalhas com um garfo insistente. ansiosa aguardo a primeira estrela , o fim do bolo e a boca sua a pendurar os sorrisos meus .

3.11.04

das apresentações II


sensitiva de si acreditava demais nos antepassos.
tropeça sim:
mas era a vida.
insistia no self idem pra sempre,
desde que nunca fosse diferente.
ela que dobrava destino só pra não contrariar,
ela que contrária agradava-se assim
pra viver de facilidades sentimentais.
tinha chavões de uma vida amena
costurados em camisas de força ortodônticas - não rangia.
sorria
sorria na repetição tola de dentes dormentes,
onde só os olhos não falhavam na missão da honestidade.
eles sim,
parados guardavam o desespero inteiro
de uma vida imprevista,
não lida nos poros óbvios da superfície inventada.
oca emprestava a sua boca em troca de não ser-se.
cerceava-se.
sóbria em excessivos tons pásteis bricolava existências viciadas,
porta-gestos de repertório restrito.
ignóbil alienava sonhos numa caixa-de-música clichê no fundo da gaveta.
por que?
ela marta.





17.10.04

nascitura

uma esperança reside muda e anônima no segundo que se segue
firmeza contida suficiente para preparar os joelhos para uma queda
e os braços pra vestir as asas.


15.10.04

das apresentações I

marta sofria de uma doença crônica:
seu nome

14.10.04

o fosso da palavra-osso ou caveiras de sentidos ou leituras de um caderno antigo ou quem foi afonso penna?



pensamentos assíduos rondam metáforas antigas:
a palavra antes tão dita, agora guarda o vácuo do precedente contido sentir.
pra onde foram estremecências, entrelinhas & intuições fisgadas na ponta sutil?
um sabe-se lá resigna minhas insistências.
no cemitério de meus sentidos, vago amnésica e incauta,desacreditada dos fantasmas que antes em arrepios me açoitavam.

[buuuu...]

de repente não cabe a ninguém entender, não te cabe, não me cabe.
excedo sim, intangivelmente em sensações que não controlo e nem nomino.não domino.

tento o luto.
balbucio palavras mortas enquanto abandono senticências necrosadas.

sem melancolias, caminho viva, em corpo e texto, pela afonso penna.

9.10.04

numa tarde de sol sem bengalas a torturar uma rua calçada, um menino sozinho, um estilingue, um gato e um revolverzinho vermelho e prata. um menino ainda sozinho. uma concentração agachada de quem aprendendo está a inventar outros que caibam, a principio numa vida inteira (nem que esta vida inteira padeça de vinte minutos apenas antes da mãe gritar um banho & bang-bang). o gato o esquece, não tem jeito. o estilingue apetece inércia de uma existência corrompida - e o menino o entende. um tiro e a surdez impactante do impulso. sonoplastias infantis convulsas percorrem as lembranças de dedos empunhados. a solidão e um corpo a distrair o tempo, gritar no ouvido dele e esconder até que aquele, cansado, se mande. eu mandava. mandava num mundo meu e em qualquer extensão que neste ousasse. aprendi cedo a mandar pra puta-que-pariu, encaminhava a ela vários e vários recônditos desagravos que amarguravam minha, até então, infância. apesar dos angustiantes segundos arrastados, que não me deixavam crescer, sofria-se em perder tempo com vazios intangíveis. aprendi cedo a descartar o que, com certeza, não me servia. (ainda não aprendi a ter certeza.) a mim é fácil o descolar-se de. : decolar ecos que só se repetem se eu gritar primeiro, como no quarto vazio dela - o surdo quarto de uma avó que lia lábios e de paredes que tinha ouvidos, imitavam-me. ela sorria e eu cerrava olhos como quem se esforça pra aprender a repetir, mas era sorriso. eu a repito. sem tentativas de. colo infâncias descascadas em meus dias hostis, colo cheiros de fruta, guarda roupas mistérios, colo os dias nublados, meu olhar enuviado e a lucidez que eu me postava, quando tempestades se encostavam em minha montanha. imito-me já que aquela lucidez nunca entendi, já que depois de mim nunca mais me alcancei. a mesma lucidez desse menino que inventa metáforas pro resto de uma vida, enquanto rabisca com gravetos um chão de areia e posta um revolverzinho no short de naylon. aprendi, como ele agora, a sonhar e a me defender do quê. "pra quê?"- me pergunto colocada de mim, enquando ando a me perder em revoadas memórias.uma esquina e eu me percebo sem meu revolverzinho."em que chão rabiscado eu o deixei?"

6.10.04

ainda que insistisse, frustava-se.
aliás, principalmente por.
faltava-lhe , nessa tanta vida ressurgida,
a letargia necessária inconquistada,
exatamente aquela,
que transforma mãos incompletas em eternidades-
sete dedos na mão como caminhos a apontar.
afobada por esses apontamentos,
ela ríspida prepotente,
pulava muros e se pardeava em noites tais.
em vão e em plurais mais:vazios.
na escuridão do tombo surdo
e dos incomensuráveis segredos dos indivísíveis,
ela seis,
desapontava-se ao olhar seus dedos mutilados.
uma vida a lamentar uma impotência contida em passado fel.
ela,
doce
e não mais tão felina.


ficaram-se os anéis.

3.10.04

vertigem

há sim uma observância abissal
que a percorre em fosso.
abre a porta numa relutância qualquer,
insiste.
sobra só uma côncava boca no espelho do elevador,
um tédio na bolsa,
o cabelo em franjas,
um batom insistente,
uma respiração constante,
os cabelos arrumados,
uma distração na imagem
"um poema dela"
as chaves na mão,
o coração e os pés...
...no chão.

ela que agora, térrea, traça olhos horizontais a fim de quedas menores.